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Crônica

Diário pessoal

O que escrever no diário quando não aconteceu nada

Dia comum é o que a gente mais esquece e mais quer de volta depois. Trinta perguntas para escrever no diário quando parece que nada aconteceu.

Redação Crônica revisado em 5 min de leitura

Quando não aconteceu nada, escreva a rotina: o que você comeu, quem te irritou, o barulho da rua, a hora em que você desistiu do dia. O dia sem acontecimento é justamente o que desaparece primeiro da memória — e o que você mais vai querer de volta em dez anos.

Ninguém precisa de ajuda para escrever sobre o casamento ou o enterro. Aquilo você lembra sozinho.

Por que é o dia comum que desaparece?

Porque a memória guarda o que é diferente. Uma terça-feira igual às outras duzentas terças não tem onde se prender, então ela se dissolve nas outras — e o que sobra é um borrão chamado “aquele ano em que eu morava no Bom Retiro”.

Faça o teste. Você provavelmente lembra da sua formatura. Agora tente lembrar do que você fazia às sete da noite numa quarta-feira daquele mesmo mês: onde você estava, com quem, comendo o quê. Aquela quarta era a sua vida, em volume muito maior do que a formatura.

O diário serve principalmente para isso. Grande acontecimento se lembra sem caderno.

O que conta como “aconteceu algo”?

Qualquer coisa que você conseguiria contar para alguém em duas frases. É um critério baixo de propósito, e é o critério certo.

“A padaria mudou o pão” conta. “Fiquei quarenta minutos preso na Marginal e ouvi um podcast inteiro sobre baleias” conta. “Minha mãe ligou às onze da noite só para perguntar se eu tinha jantado” conta muito — daqui a vinte anos essa é a entrada que você vai reler duas vezes.

O que não conta é resumo. “Dia normal, nada demais” é a entrada que não guarda nada. Se você só tem cinco palavras, gaste as cinco em um detalhe: “chuva forte, dormi com a janela aberta”.

Trinta perguntas para dias em que nada aconteceu

Escolha uma, responda em três frases, feche o caderno. Não é para responder trinta.

O que a rotina esconde

  1. O que você comeu hoje, em ordem?
  2. Que caminho você fez e o que estava diferente nele?
  3. Qual foi a primeira coisa que você tocou depois de acordar?
  4. O que ficou por fazer e não te incomodou nada?
  5. Que tarefa chata você fez sem nem perceber que estava fazendo?
  6. Que objeto da sua casa você usou hoje e nunca notou?

O que o corpo e o tempo dizem

  1. Que horas você percebeu que estava cansado?
  2. Onde no corpo o dia de hoje ficou?
  3. Que temperatura estava, e você acertou na roupa?
  4. Quanto tempo você passou parado esperando alguma coisa?
  5. Qual foi a hora mais lenta de hoje?
  6. Você dormiu bem ontem? Deu para notar hoje?

As pessoas do dia

  1. Quem falou com você hoje sem precisar?
  2. Qual foi a última mensagem que você recebeu, e você respondeu?
  3. Quem você viu de longe e não cumprimentou?
  4. Que rosto desconhecido ficou na sua cabeça?
  5. Que assunto voltou numa conversa que você já teve semana passada?
  6. Quem você deixou de ligar hoje pela terceira vez?

O que passou pela cabeça

  1. Que pensamento apareceu duas vezes hoje?
  2. O que você quase disse e engoliu?
  3. Que música tocou na sua cabeça sem motivo?
  4. Do que você teve vontade e não fez?
  5. O que te irritou de um jeito desproporcional?
  6. Qual foi a coisa mais boba que te deu prazer?

O que está mudando devagar

  1. O que hoje foi mais fácil do que era um ano atrás?
  2. O que está na sua casa hoje que não estava em janeiro?
  3. Que preço você notou que subiu?
  4. Que assunto você anda evitando?
  5. O que na sua rotina de hoje vai ter acabado em cinco anos?
  6. Se o dia de hoje virasse fotografia, que canto da sua casa ela mostraria?

A pergunta 29 é a mais produtiva das trinta, e a mais desconfortável. Ela transforma uma segunda-feira sem graça em documento: o apartamento alugado, a caminhada com o cachorro que está velho, a criança que cabe no seu colo. Nada disso vai estar lá.

E se eu ainda não conseguir escrever nada?

Então não escreva. Fotografe uma coisa e escreva a legenda.

Foto do prato, da mesa de trabalho às três da tarde, do sofá com o cobertor amassado. Uma linha embaixo: “quinta, sozinho em casa, ninguém ligou, foi bom”. Isso é uma entrada de diário completa e leva quinze segundos.

Se nem isso, fale. Um áudio de dez segundos no gravador do celular, contando o dia como você contaria para um amigo no telefone. Diário de áudio funciona muito bem em dia mole exatamente porque falar não exige achar a frase bonita.

Vale a pena escrever sobre nada?

Vale, e o retorno chega tarde — o que é honesto dizer. Uma entrada sobre uma terça comum não faz nada por você hoje. Ela faz daqui a cinco anos, quando for a única coisa que restou daquela época.

Um exemplo do meu caderno: “23 de agosto. Nada. Comprei pilha na banca do seu Alcides e ele reclamou do time.” O seu Alcides fechou a banca. Aquele parágrafo idiota é a única coisa escrita que eu tenho sobre um homem que eu vi quase todo dia por seis anos.

Nos dias em que a resistência é grande, corte o tamanho antes de cortar o hábito. Três minutos bastam, e este texto explica por que a página cheia é a meta que quebra o diário. Se você está na primeira semana e o problema é outro, os cinco obstáculos de quem começa estão aqui, e o método inteiro está no guia do diário pessoal.

Tem mais perguntas prontas, organizadas por assunto, no pacote de perguntas de diário para o dia a dia.

No Crônica você conta o dia comum por áudio ou texto e recebe uma página ilustrada dele — inclusive nos dias em que não aconteceu nada.

Escolha uma das trinta perguntas e responda hoje, antes de dormir.

Escrever é o hábito. A página é o presente.

No Crônica você conta o dia em dez segundos — texto, áudio ou foto — e recebe uma página ilustrada no livro da sua vida. As páginas viram álbum, crônica de domingo e livro no fim do ano.

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Este texto faz parte do guia Diário pessoal . Aprender a manter o hábito de escrever sobre o próprio dia.

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